MANIFESTO DE LUTO: Pela Memória de Mariana
CLAMOR À LUZ: Dignidade do Feminino
No silêncio das salas de audiência e no eco dos corredores da Justiça, hoje se ouve o gotejar de lágrimas.
Lágrimas por Mariana Francisco Ferreira, uma mulher, uma magistrada, uma filha que partiu no auge de sua primavera, enquanto buscava o milagre da vida — a maternidade.
É com profunda indignação que assistimos à instrumentalização dessa dor. A charge publicada pela Folha de S. Paulo, assinada por Marília Marz, não é apenas um erro de traço ou uma crítica política ácida; é a expressão adoecida de uma sociedade que ainda não descortinou o sentido da humanidade, em sua dimensão inteira.
A dor feminina comumente é desconsiderada. A desqualificação da existência de mulheres é o abismo que evidencia o assassinato de histórias, não apenas pelo feminicídio que guarnece os cenários públicos e sociais de uma sangrenta realidade.
Há uma terrível doença que contamina espaços relacionais, expressões, percepções, mapas simbólicos decorrentes de um silêncio imposto, de trevas diversas à existência de mulheres e meninas.
Quando a tinta da cartunista ignora o sangue que deixa de pulsar e a lágrima da genitora da vítima e de sua família, na véspera do Dia das Mães, o que se vê é a face mais drástica da violência normalizada contra o feminino.
O que nos dói, com um peso ainda maior, é perceber que o patriarcado não escolhe gênero para se manifestar. Ele se entranha na percepção, tornando invisível a dor do feminino até mesmo aos olhos de outra mulher.
Ao tentar reduzir uma vida interrompida à pretensão de um imaginário que visava atingir uma carreira de Estado (a magistratura), a charge usou da vulnerabilidade do feminino, o que comumente se faz: vidas instrumentalizadas, reproduzindo o mesmíssimo mecanismo que banaliza a morte de mulheres, suas dores, a maternidade como condição desqualificada e alheia à sociedade (como se de seu ventre não resultasse a humanidade inteira!).
O uso simbólico da imagem publicada no Jornal Folha de S. Paulo, neste sábado, dia 09 de maio, mostra a realidade envolta desse cenário socialbrutal.
Desumanizar e fragmentar a vida de Mariana é mais uma forma sistêmica de invisibilidade.
O mesmo plano simbólico desse véu que nos cega para as violações de direitos humanos, praticadas cotidianamente contra o feminino (estupros, feminicídios, exploração sexual, tráfico internacional de mulheres e meninas, desqualificação no trabalho e de salário, violência política contra mulheres, não participação igualitária na definição das Políticas de Estado), novamente traz a sua evidência na véspera do Dia das Mães.
Precisamos de Educação para a Equidade. Não uma educação meramente técnica, mas uma educação do olhar, da sensibilidade e da alteridade. Uma educação que ensine que a dor de uma mãe não tem cargo, e a memória de uma filha não tem preço. Uma educação que entenda as medidas do espaço informativo e de um coerente apreço pela igual dignidade entre mulheres e homens.
À família de Mariana Francisco Ferreira, especialmente à sua genitora, oferecemos não apenas nossa solidariedade, mas nosso abraço em prece.
Que o vazio desta véspera da Celebração da Vida seja preenchido pela certeza de que Mariana foi luz, e que seu sacrifício despertará novas consciências para este terrível mal que contamina e mantém latente chagas sociais, que secularmente ridiculariza a vida das mulheres. As próprias mulheres também são instrumentalizadas nesta reprodução aviltante.
O atestado do patriarcado está preenchido de morte.
A magistratura brasileira derrama suas lágrimas, mas também reafirma sua força.
Não permitiremos que a memória de Mariana seja manchada pela insensibilidade.
Que esta tragédia editorial sirva de espelho para uma sociedade que precisa se curar, urgentemente.
Que a chargista Marília Marz possa aprender com o contexto desta evidência e com o terrível erro decorrente de uma insensibilidade cultural que despreza a vida e a realidade das mulheres.
Que o Jornal Folha de S. Paulo venha à público pedir perdão:
- à mãe de Mariana;
- à memória desta honrada magistrada que morreu pelo sonho da maternidade;
- às mulheres pela humanidade esquecida em seus ventres;
- e à magistratura enlutada pela trágica perda de uma grande magistrada, a juíza Mariana.
Além do estarrecimento, vale-nos questionar: Até quando o feminino será condicionado à sombra da humanidade? Como podemos ser sombra... ao carregarmos a luz da vida?
MARIA ELIZABETH GUIMARÃES TEIXEIRA ROCHA
Ministra-Presidente do Superior Tribunal Militar
Presidente do Fórum das Mulheres Juristas e Presidente do Observatório Pró-Equidade da JMU
AMINI HADDAD CAMPOS
Juíza Coordenadora do Observatório Pró-Equidade da JMU
Coordenadora do FONAMJUR e da Regional Centro-Oeste - ABMCJ-Nacional

